belogue

banalidades circunstanciais.. ou não!

auf wiedersehen.

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Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus

[Eugénio de Andrade]

xipiti

8 Comentários »

  msgd wrote @

Fantástico.
Bom Post.

  Só Maria wrote @

ok, já percebi, as palavras estão gastas! fica lá com os peixes que eu levo o aquário! :D
também se podia chamar Erosão!

agora a sério, muito bonito! ;)

  XIPITI wrote @

Fantástico não! Merece um almoço no Ida & Volta… olha o forreta!

  XIPITI wrote @

E o que é mais fantástico é que a 1ª vez que li este poema (?) foi na porta de uma das casas de banho do Aqui há Rato há imensos anos atrás…

  msgd wrote @

Imensos anos? Ou eu estou meeeesmo mal ou então o Rato não tem assim tantos anos (ou tem?).
:P

  msgd wrote @

ah… e vamos lá almoçar, sim senhora… marca o dia e combina com o Kiko… anybody else is welcome.

  Yashmeen wrote @

Lembro-me deste poema de uma aula no Secundário. Belíssimo poema, belíssimo poeta…

  Dentro do meu mundo « cultura pop wrote @

[...] do meu mundo Na procura deste post apercebi-me de outros (incluindo sobre o Wagamama!) que nunca tinha lido no Belogue e apenas [...]


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