belogue

banalidades circunstanciais.. ou não!

a essência que se vai perdendo.

Uma interessante entrevista ao cardiologista Miguel Mota Carmo, publicada no Jornal de Leiria da semana passada, despertou a minha atenção por esta frase: “Um médico não pode ser só um técnico. Não se pode limitar a fazer consultas. Tem de conversar com os doentes. Hoje, a malta não é capaz de fazer uma festa a um velho ou a uma criança.” Nesta entrevista o Dr. Miguel Mota Carmo aborda a questão da vocação dos médicos actuais, o que os motivará e o próprio processo de selecção: o peso que as classificações têm sobre o real valor ou aptidão das pessoas. Basicamente a diferença entre bons alunos e bons profissionais. Curiosamente este tema vem a propósito de uma conversa com algumas dessas “maltas” que criticam os próprios colegas de não se preocuparem com os doentes / pacientes e tratarem-nos como meros “clientes”. De facto são, também, clientes. São a razão material de uma profissão, mas uma profissão que deveria obrigatoriamente ir mais além do que essa mesma razão material, afinal estamos a falar de seres humanos a cuidarem de outros seres humanos. Existirá mesmo esta humanidade no seio da malta médica, principalmente nas gerações mais novas? Eu creio que não. Escrevo isto com base em alguns conhecimentos pessoais, de médicos ainda recém-formados (leia-se pela faculdade, não pela vida…) que trabalham já contaminados pelo mesmo materialismo egocêntrico de uma outra qualquer profissão moderna que não envolva cuidar de outrem. Talvez seja natural que com o passar dos anos, com tal experiência de vida esta malta modifique o seu comportamento, que se consiga libertar de um deslumbramento inicial e que isso conduza a um altruísmo equilibrado. Isto terá de partir da análise de cada um, não pode ser forçado. Apesar de algo difuso sobre este tema, não é também sobre isso que se debruça o Juramento de Hipócrates?

msgd

4 Comentários »

  NakedSelf wrote @

Excelente reflexão, muito pertinente na missão em questão. Sim, que considero missão, mais que profissão. A pediatra da Lourinha é um excelente e bom exemplo desse espírito. Mas deixa-me ir um pouco mais além – falta humanidade em tudo em geral. A sociedade em que vivemos não tem nada de altruísta. Há um vazio colectivo absolutamente assustador.

  (Des)Educar « o meu lado esquerdo wrote @

[...] (Des)Educar Maio 22, 2008 Desde sempre que antecipámos que a educação da Lourinha é sem dúvida o nosso maior desafio. Pela missão em si e pela conjugação de todos os outros factores que a tornam cada vez mais difícil. A nossa menor disponibilidade em tempo para estarmos com os nossos filhos, a forma como cada vez mais estão expostos a tudo em geral e ao medíocre/mau em particular,…Sempre soubémos que teremos grandes dificuldades em definir determinadas regras ou manter determinados padrões de conduta sempre que tal signifique ser a excepção relativamente aos demais. Sabemos que o caminho a seguir é mantermos os nossos valores, a nossa conduta, as nossas regras, a nossa disciplina, distinguir o bem do mal, acreditando que há-de servir para algo. Mas um exemplo simples, tão simples, deixa-me apreensiva. A Lourinha sempre gostou de leite, tempos houve que bebia 300 ml ao pequeno-almoço. Algures no final do ano passado apercebi-me que bebia esporadicamente leite achocolatado na escola, prática introduzida na “sala dos 2 anos” sem qualquer aviso prévio e pela qual manifestei desagrado, indicando que não seria de manter com a Lourinha. Infelizmente e no mesmo espaço escola ocorre pelo menos nalgumas celebrações de aniversário dos coleguinhas, esperando eu que seja apenas nessas circunstâncias. O resultado desta deseducação adquirida na escola está à vista, depois de cerca de 1 mês de esforços absolutamente incríveis da nossa parte para contornar este novo obstáculo de não querer beber leite. Hoje lá comprámos a embalagem do pózinho. Eu fico absolutamente decepcionada. Curiosamente a pediatra tinha alertado que o consumo esporádico de leite achocolatado podia conduzir a este resultado precisamente por saber que a grande maioria das escolas praticam estas e outras aberrações alimentares. Referiu mais: que na escola primária em que o Estado se responsabiliza por garantir o lanche à criançada, fá-lo também recorrendo aos pacotinhos de leite achocolatados, demitindo-se uma vez mais da sua função de educador. É sem dúvida mais uma face de uma essência que se vai perdendo. [...]

  Xipiti wrote @

Compreendo que possa ser inebriante saber alguns “truques” que podem salvar vidas, que possa ser avassalador não conseguir salvar todos os que passam pelo gabinete ou pelas suas (dos médicos) vidas, que possa ser muito gratificante ouvir e ver nos olhos de alguém um “Muito obrigado, Senhor(a) Doutor(a)!”, que possa ser terrível ter a responsabilidade da vida e do futuro de alguém nas mãos. Compreendo que se criem autodefesas, compreendo que se sintam poderosos e vaidosos por serem e serem reconhecios como especiais, compreendo isso tudo… o que não compreendo é por que carga de água para se ser médico tem de se ter uma média tão alta, quando isso nem sempre equivale áquilo que o nosso mestre falou e muito bem: humanidade / sensibilidade.
A título de curiosidade e sobre o ser médico e ser humano, vou apenas contar um episódio que se passou com alguém próximo de mim que ao ser operado a uma catarata (sim, a famosa operação de que todos falam) e que é apenas com anestesia local, a equipa médica que estava no bloco a dada altura começou a comentar entre todos “Epá, este olho está todo desfeito! Isto está uma papa! Calma lá, ninguém mais mexe aqui! Vejam lá isto!!!”… agora só vos peço um pequeno exercício que é o de se imaginarem no lugar do doente a ouvir tudo aquilo, a ser rodeado por pessoas que não conhece, a só conseguir ver os olhos de quem espreitava que mostravam estar tão assutados como o doente! Nem uma palavra para acalmar, nada. Que sorte a dele ter sido operado por um suprassumo da especialidade… That’s all folks… for now.

  Madrinha Gi wrote @

Há realmente algumas diferenças entre os médicos de “antigamente” e os das classes mais jovens, mas parece-me que também aqui a competitividade e os desafios da sociedade se reflectem…e depois há a tal sensibilidade, que pode ser exactamente o maior entrave, não pela ausência mas precisamente por ela existir…a ver se me consigo explicar:
!ºhoje as doenças são cada vez mais, ou pelo menos cada vez mais identificadas e exigem mais especialidades, o que exige da parte do médico um maior empenho e desmpenho técnico…
a questão da sensibilidade, é muito sensível (lol)…ficou-me para sempre na memória uma enfermeira, das que visitava a minha Mãe, sem sorrisos, algum distanciamento e frieza…a expressão dos olhos da minha Mãe mudava sempre quando era aquela enfermeira, transmitia sempre algum receio e em mim alguma agressividade, como poderia aquela profissional tratar alguém que espera a “sua hora” assim?! “bruta”…julgava eu!
até ao dia, 3 de Novembro de 2006, depois de 2 longos meses a cruzar-me com ela…de manhã entrou para cuidar da minha Mãe, e disse-me: vá tomar o pequeno-almoço que quero cuidar da sua Mãe…
quando regressei, e depois de falar com o médico das paliativas, ela continua ali…
Ela: vamos ter de tirar o soro.
Eu: está bem! mas, oh Enfermeira S., isto ainda vai demorar muito?!
Ela: olhou-me por cima do ombro e com os olhos vidrados de lágrimas e diz-me: “enquanto a sua Mãe sentir o seu sofrimento, não parte…deixe-a ir”…
Insensível?!…não! apenas um ser humano, que mesmo tendo escolhido a profissão que a “obriga” a lidar com a vida e a morte na mesma percentagem…em algum momento a sofreu na pele…e sentiu uma necessidade de se proteger…afinal, somos todos feitos do mesmo…e em todos existe um coração…e uma história que desconhecemos! :)

(não me queria de todo desviar ou discordar do médico cardiologista, porque não discordo, mas há sempre uma história em cada um que desconhecemos) :)


O seu comentário:

HTML-Tags:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>