Uma interessante entrevista ao cardiologista Miguel Mota Carmo, publicada no Jornal de Leiria da semana passada, despertou a minha atenção por esta frase: “Um médico não pode ser só um técnico. Não se pode limitar a fazer consultas. Tem de conversar com os doentes. Hoje, a malta não é capaz de fazer uma festa a um velho ou a uma criança.” Nesta entrevista o Dr. Miguel Mota Carmo aborda a questão da vocação dos médicos actuais, o que os motivará e o próprio processo de selecção: o peso que as classificações têm sobre o real valor ou aptidão das pessoas. Basicamente a diferença entre bons alunos e bons profissionais. Curiosamente este tema vem a propósito de uma conversa com algumas dessas “maltas” que criticam os próprios colegas de não se preocuparem com os doentes / pacientes e tratarem-nos como meros “clientes”. De facto são, também, clientes. São a razão material de uma profissão, mas uma profissão que deveria obrigatoriamente ir mais além do que essa mesma razão material, afinal estamos a falar de seres humanos a cuidarem de outros seres humanos. Existirá mesmo esta humanidade no seio da malta médica, principalmente nas gerações mais novas? Eu creio que não. Escrevo isto com base em alguns conhecimentos pessoais, de médicos ainda recém-formados (leia-se pela faculdade, não pela vida…) que trabalham já contaminados pelo mesmo materialismo egocêntrico de uma outra qualquer profissão moderna que não envolva cuidar de outrem. Talvez seja natural que com o passar dos anos, com tal experiência de vida esta malta modifique o seu comportamento, que se consiga libertar de um deslumbramento inicial e que isso conduza a um altruísmo equilibrado. Isto terá de partir da análise de cada um, não pode ser forçado. Apesar de algo difuso sobre este tema, não é também sobre isso que se debruça o Juramento de Hipócrates?
msgd











Excelente reflexão, muito pertinente na missão em questão. Sim, que considero missão, mais que profissão. A pediatra da Lourinha é um excelente e bom exemplo desse espírito. Mas deixa-me ir um pouco mais além – falta humanidade em tudo em geral. A sociedade em que vivemos não tem nada de altruísta. Há um vazio colectivo absolutamente assustador.